Vale tudo para sobreviver? O conflito moral em "The Walking Dead"

Artigo escrito por Roberto Guimarães, Especialista em Sociologia e Diretor do Grupo Projetar - Evolução Pessoal, e por mim, em parceria com o site i9vadore.



Introdução

O seriado The Walking Dead tem mexido com a imaginação dos espectadores ao propor um cenário apocalíptico, no qual a maioria dos seres humanos, após sofrer contaminação, transformou-se em zumbi ou Walker, denominação atribuída pelos próprios personagens. Como os Walkers se alimentam também de humanos, eles se tornaram a maior ameaça à vida, e, sob esse risco constante, a sociedade civilizada desabou. Os indivíduos restantes não tem feito mais do que lutar por sua sobrevivência.

Ruínas de um mundo civilizado
As sociedades, como as conhecemos, são regidas por leis e regras morais que orientam os indivíduos na condução da vida, impondo-lhes ou sugerindo-lhes limites e referências de comportamento. Os atos que os excedem são frequentemente classificados como imorais, ilegais, ou, em casos extremos, desumanos. 
Mas, segundo Thomas Hobbes, as regras somente têm validade e efeito quando existe um poder soberano capaz de impor seu cumprimento, pois, do contrário, os seres humanos entrariam em constantes conflitos em busca de seus próprios interesses. É justamente esse o mundo de The Walking Dead: não há mais poder soberano, não há Estado. Nesta condição, os sobreviventes estão abandonados aos seus próprios recursos e precisam definir por si mesmos as normas que conduzirão seus atos, não somente em relação aos Walkers, mas em relação aos outros seres humanos, agora desregulamentados e também inseguros quanto à própria sobrevivência. Daí surge a pergunta: o que vale para garantir a vida? O que é permitido e em que condições?
Um simples exemplo pode ilustrar o problema: um grupo de homens armados, acompanhados de seus familiares, entre eles crianças e idosos, encontra um indivíduo desconhecido, também armado. O que podem eles fazer para preservar sua pequena comunidade da ameaça potencial que tal indivíduo representa? A resposta é: tudo. Onde impera a lei do mais forte se pode desconfiar, manipular, aprisionar, torturar, matar e etc. Mas, deve-se agir assim? E a tensão gerada por essa segunda questão eleva o clima do seriado às alturas.
O conflito ético
Isso se dá por que a ética, quando se prioriza a sobrevivência, passa a abranger todas as ações necessárias para que o organismo se mantenha vivo. É uma ética consequencialista pragmática, na qual as ações tidas como boas ou corretas são aquelas que resultam na manutenção da vida de quem age ou na melhoria das condições desta. Esta é a linha de pensamento que mais nos aproxima do nosso estado natural, ou animal. Porém não é essa a conduta a que estão habituados indivíduos civilizados, uma vez que, para a facilitação das próprias vidas, têm como limites as leis e a moral vigente. Ou seja, pelo menos quando estão sob vigilância, estão impedidos de um grande acervo de ações, tais como roubar, escravizar e etc.
Então, o conceito de humanidade que o cidadão apreende – ou seja, aquilo que é aceitável para ser considerado “humano” – é estabelecido de acordo com estes limites estabelecidos pela sociedade organizada. Quando ela deixa de existir, o conflito entre as normas apreendidas e os atos que precisam executar para sobreviver é constante.