Enemy – O Homem Duplicado: O Retrato da Massificação

Artigo escrito por Roberto Guimarães, Especialista em Sociologia e Diretor do Grupo Projetar - Evolução Pessoal, e por mim, em parceria com o site i9vadore.





AVISO: o texto abaixo contém SPOILERS.

O filme O Homem Duplicado é supostamente uma adaptação para o cinema do livro homônimo de José Saramago. Porém, para quem leu o livro, o filme pode ser bastante desapontador.

É de se esperar que uma adaptação promova alterações no original, afinal, uma cópia fiel do livro talvez não funcionasse bem para as telas. O tema é aparentemente o mesmo. Um indivíduo de meia idade que vive uma vida “apagada” se depara com um Homem fisicamente idêntico em uma cena de um filme que assistia. A semelhança é tão espantosa que ele inicia uma busca para contatar seu duplo. Suas vidas se cruzam e a curiosidade de um sobre a vida do outro leva às piores consequências.


Infelizmente, no filme O Homem Duplicado, a relação de similaridade entre os protagonistas não fica tão clara como no livro, o que pode levar a conclusões parciais sobre um tema tão interessante. Ambos mostram que não há explicações biológicas para a igualdade, como o caso de gêmeos que foram separados no nascimento, por exemplo. Porém, diferentemente do filme, no final do livro fica mais transparente que a semelhança da qual compartilhavam os protagonistas era existencial.
Os dois indivíduos vivem vidas insatisfatórias, reflexo da adesão a ideais pautados em parâmetros externos e incongruentes com a individualidade. Relacionamentos fragilizados, carreiras em deterioração, enfim, vidas como outras tantas, cujos significados passaram a ser questionados com o passar dos anos pela quebra das ilusões e promessas contidas nas fórmulas padronizadas de sucesso: casa própria, carro do ano, profissão estável financeiramente, etc.
A tensão que existe entre os duplos, produtos de uma sociedade massificadora, reflete a insegurança com relação às próprias escolhas de vida. A inquietação existencial faz brotar a curiosidade sobre a vida do outro: será que os caminhos trilhados por ele teriam sido mais realizadores do que os meus? Os personagens cedem à tentação de experimentar a forma de ser do duplo. Afinal, que outra forma teriam para redimir a própria existência desperdiçada em rotinas heterônomas, determinadas por terceiros?